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Os desafios da escrita

Resenha:

CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002. 150 p.

 

Biografia:

Roger Chartier é autor de diversos livros sobre a história cultural e objetivou seus estudos na história da escrita. De acordo com Lynn Hunt (1992) as tendências a dar maior ênfase a história cultural já aparecem com os marxistas e também com os adeptos dos Annales [1]. No entanto, foi a quarta geração dos Annales, da qual Chartier era integrante, que passou a investigar as práticas culturais. Chartier é Diretor de Investigações na Escola dos Altos Estudos em Ciências Sociais e foi docente na Universidade de Paris I (Sorbonne) [2]

A passagem dos pictogramas gravados nas tábuas de argila até a escrita, conforme conhecemos hoje, é tema para muitos estudiosos. As transformações tecnológicas iniciadas no século XX, que configuraram novas condições na produção dos textos escritos, atestam a contemporaneidade e relevância do assunto. Por este motivo escolhi, para desenvolver esta resenha, o livro “Os desafios da escrita” editado em 2002 e que teve como base as conferências pronunciadas por Chartier em 2001 na 10a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Outro motivo é por se trata de história cultural.

Em “Os desafios da escrita”, Chartier aborda a relação que mantemos com a escrita, as práticas exercidas pelo escritor, pelo leitor e pelos diversos agentes envolvidos na produção e distribuição de textos através de impressos em papel ou editados, gravados e visualizados nas novas formas da tecnologia. Neste sentido, toda história contada tem um enfoque, ou seja, ela é contada a partir de uma determinada perspectiva. Conforme Hunt “... algumas teorias enfatizam a recepção ou leitura dos textos, outras sua produção ou escrita, outras a unidade e coerência do significado, outras ainda enfatizam o papel da diferença e as maneiras pelas quais os textos funcionam no sentido de subverter suas aparentes finalidades.” [3]

A estrutura do livro apresenta uma introdução e cinco artigos que consideram a escrita em épocas diferentes. O primeiro e o último artigo são ensaios dedicados às principais mudanças impostas as relações que mantemos com a cultura escrita devido a nossa entrada no mundo digital, dentre elas o autor cita as ”... práticas de leitura, as novas modalidades de publicação, a redefinição da identidade e da propriedade da obra, ou o imperialismo lingüistico estabelecido sobre a comunicação eletrônica ...” (p. 7). Os outros artigos referem-se aos processos de produção, transmissão e recepção dos textos, ao sentido do texto diante da sua materialidade e a utilização do manuscrito na história da escrita.

Quanto à metodologia, Chartier considera a história da escrita como uma “estrutura de longa duração”, faz recortes no tempo num jogo inquieto de relações entre o passado e o presente e se apropria da literatura como representação do real e o que ela proporciona como forma de conhecimento das práticas e discursos de cada grupo social em determinada época, já que para Chartier:

A história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objecto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler. [4] (...) Desta forma, pode pensar-se uma história cultural do social que tome por objecto a compreensão das formas e dos motivos  ou, por outras palavras, das representações do mundo social  que, à revelia dos actores sociais, traduzem as suas posições e interesses objectivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse. [5] (...) A problemática do “mundo como representação”, moldado através das séries de discursos que o apreendem e o estruturam, conduz obrigatoriamente a uma reflexão sobre o modo como uma figuração desse tipo pode ser apropriada pelos leitores dos textos (ou das imagens) que dão a ver e a pensar o real. [6]

Línguas e leituras no mundo digital

Chartier faz um paralelo entre o que acontece hoje com as línguas utilizadas nos meios digitais e os acontecimentos que se desenrolam no conto “O congresso”, escrito por Jorge Luis Borges em “O livro de areia” em 1975. Borges relata através do personagem Alejandro Ferri o episódio em que o personagem tem a tarefa de investigar qual seria a língua ideal para o Congresso do Mundo. Depois de muitas pesquisas na biblioteca do Museu Britânico ele chega a conclusão que a busca é inútil, termina por anunciar que o Congresso do Mundo é o próprio mundo desde que existe, com suas diversidades de lugares e idiomas. De forma contraditória, em um outro conto do mesmo livro “Utopia de um homem que está cansado” Borges utiliza o personagem Eudoro Acevedo para relatar um futuro em que a comunicação se reduziu a um só idioma, um mundo sem desigualdades, sem conflitos, mas um mundo sem graça, sem diversidades, sem história e sem identidade.

Chartier lembra então que hoje a língua inglesa é a universalmente aceita na comunicação via internet, nas publicações científicas e nas informações distribuidas por diversos meios e aponta como conseqüência a preponderância da ortografia inglesa e diz que na internet isto se deve ao predomínio de usuários de países de língua inglesa. De acordo com o autor, pesquisas mais recentes demonstram o aumento de usuários de outras línguas na rede. Explica também que há progresso no ensino de outros idiomas na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos. Sob este ponto de vista, confessa ser partidário das idéias de Umberto Eco, no que concerne a um poliglotismo pelo prazer do aprendizado de uma fala diferente o que pode evitar a redução a um só idioma.

Ainda neste capítulo Chartier aponta três recortes importantes para o entendimento da ordem dos discursos ou seja, para o entendimento da maneira como a cultura impressa se orienta: o tipo de suporte ou objeto, a categoria de texto e formas de leitura . O primeiro recorte se dá entre os sec. II e IV quando surgiu o livro em cadernos, o segundo nos sec. XIV e XV com o aparecimento do “livro unitário” livro escrito em língua vulgar por um único autor, e o terceiro no sec. XV a invenção da imprensa.

Agora a textualidade eletrônica chega trazendo transformações na ordem dos discursos. Estamos diante de uma tela de computador, um novo suporte recebendo qualquer categoria de texto e uma maneira diferente e descontínua de leitura devido aos links. Além disso a textualidade eletrônica caracteriza-se por apresentar textos completamente abertos a mutações coletivas pelos leitores que interagem diretamente editando, recortando, copiando, reescrevendo, se apropriando do que foi escrito por outros. Estas facilidades perturbam a propriedade intelectual a confiança e estabilidade que o leitor deposita nos textos e autores. Neste ponto Chartier cita Foucault dizendo que:

Nesse processo desaparece a atribuição dos textos ao nome de seu ator, já que estão constantemente modificados por uma escritura coletiva, múltipla, polifônica, que dá realidade ao sonho de Foucault quanto ao desaparecimento desejável da apropriação individual dos discursos – o que ele chamava a “função-autor”. (p. 25)

Diante da digitalização dos textos Chartier preocupa-se com a manutenção dos livros impressos guardados nas bibliotecas, e deixa uma indagação quanto a perpetuação da edição de livros fora do mundo digital.

Dom Quixote na tipografia

Este ensaio descreve as aventuras de Dom Quixote em uma gráfica fazendo-nos visualizar mentalmente as diversas tarefas na produção de um livro no Sec. XVII em Barcelona. Com este cenário Chartier pretende demonstrar que os textos de um autor quando transformados em um livro impresso incorporam outros elementos tais como a disposição dos textos nas páginas, as alterações ortográficas feitas pelos tipógrafos, revisores e editores. As vezes durante estas atividades, acabam acontecendo erros nos textos e outras vezes até cortes pela censura. A ocorrência destes fatos influenciam as práticas de leitura interferindo na interpretação do texto pelo leitor e propiciam assunto à crítica literária.

A mediação editorial

Continuando com as questões referentes às práticas de leitura o autor avalia o sentido que um texto pode adquirir mediante o suporte utilizado, lembrando que cada época tinha suas próprias características no que concerne as práticas de edição. Desta forma, é aconselhável, na interpretação de um texto, levar em consideração a época e o local de sua publicação. Um dos casos citados é o do “livro azul” no séc. XVI e XVII, na França, cujas características gráficas tinham o objetivo de baratear seu custo e até mesmo a maneira como capítulos e parágrafos eram compostos. Esta forma de diagramação pretendia atingir ao que os editores entendiam como o gosto de leitura de um determinado público. Estes livros ficaram conhecidos não por seu conteúdo, mas pela sua forma material.

O manuscrito na era do texto impresso

Chartier conta aqui as maneiras de uso do manuscrito antes e após ter sobrevivido à imprensa. Para cada uso um suporte e uma grafia diferente, atendendo a política, a religião, a literatura, as construções monumentais, aos monumentos funerários das igrejas, as reproduções feitas por copistas de livros, aos apontamentos de estudantes e professores nas margens dos livros impressos, ao preenchimento de formulários impressos, a escritura contábil, as correções tipográficas e tantas outras utilidades.

Morte ou transfiguração do leitor?

Da mesma maneira que Foucault anunciou a morte do sujeito [7] e Roland Barthes do autor [8], Chartier coloca em questão o desaparecimento do leitor. Apresenta então um quadro pessimista que atesta a pouca leitura na última década do Sec. XX. Estatísticas feitas na França demonstraram a diminuição da porcentagem global dos leitores naquele país. O aumento do uso das bibliotecas e processos de fotocópia por parte dos estudantes são fatos estatísticos que levam as baixas vendas de livros. Instaura-se assim uma crise no setor editorial.

Um dos motivos apontados para a diminuição da leitura seria o fato do leitor ter se tornado telespectador da televisão e do cinema. O autor convida-nos a refletir sobre esta questão, mais precisamente sobre a nova tela, a do monitor do computador que se torna um novo suporte para a escrita.

Chartier diz que os movimentos corporais de quem lê um rolo de pergaminho, um codex ou uma tela de monitor não são iguais e que o significado dos textos escritos, diagramados e pensados para a forma encadernada, podem ser diferentes quando publicados nos moldes digitais. Chama a atenção para uma “mutação epistemológica” (p.108) advinda da permuta de um texto linear e dedutivo por um texto aberto, expandido e relacional já que o leitor pode ao mesmo tempo em que lê, consultar os anexos da pesquisa: imagens, músicas e arquivos diversos, navegar pelos links fazendo uma leitura não-linear.

Diante da textualidade eletrônica a própria noção do que seja o objeto livro é posta em questão por Chartier. A classificação dos impressos pela aparência imediata do suporte não acontece no mundo digital, já que todos os textos são apresentados numa mesma tela e formato. Desta forma, o autor explica que: “A técnica digital entra em choque com esse modo de identificação do livro pois torna os textos móveis, maleáveis, abertos, e confere formas quase idênticas a todas as produções escritas: correio eletrônico, bases de dados, sites na Internet, livros etc.” (p.110)

Chartier lança-se então nas incertezas do futuro fazendo projeções sobre a chegada de novo hardware composto de “tinta e papel eletrônico”, que identifique materialmente um livro e permita proteger a autoria. As dúvidas são muitas: teria leitor este livro? Seria acessível a grande parte da população? Ficaria a produção de textos, informações e conhecimento controlado pelas empresas multimídias?

Chartier posiciona-se quanto ao futuro do leitor diante da atual textualidade eletrônica entendendo que: “O novo suporte do escrito não significa o fim do livro ou morte do leitor. O contrário, talvez. Porém, ele impõe uma redistribuição dos papéis na “economia da escrita”, a concorrência (ou a complementaridade) entre diversos suportes dos discursos e uma nova relação, tanto física quanto intelectual e estética, com o mundo dos textos.” (p.117)

Conclusão

Ao final deste estudo pude constatar o uso prático do método de Chartier que se caracteriza pela representação, pela prática e apropriação da literatura. O livro “Os desafios da escrita”, de forma clara e concisa, dá sentido ao passado abordando as práticas da escrita e da leitura, ao mesmo tempo em que menciona o poder político daqueles que detinham o conhecimento editorial e os meios de impressão. Aponta um presente tecnológico que subverte as práticas do passado dando autonomia ao autor de escrever e distribuir, abertamente, textos em formato digital, através da internet. A autoria, no entanto, acha-se ameaçada e ainda vai demorar um longo tempo para que se encontre um caminho seguro.

A desmaterialização seja de um livro ou de uma pintura já faz parte do cotidiano dos lares e das instituições. No entanto, o desconforto visual do leitor ou do espectador, ou melhor ainda, do usuário, diante do monitor é grande o que o obriga a compra de um livro impresso ou se for o caso, imprimir o texto ou a imagem em um dispositivo de impressão em papel, muito embora este desconforto não impeça a leitura diretamente na tela. Acredito que assim como sobreviveu o manuscrito sobreviverá a imprensa por um longo futuro até que se encontre o suporte eletrônico da escrita ergonomicamente ideal.


 [1] HUNT, Lynn.(org) Apresentação: história, cultura e texto. In: A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p 5

 [2] CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Difel, 1990.

 [3] HUNT, op. Cit, p 19.

 [4] CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Difel, 1990. p 16-17

 [5] CHARTIER, op. Cit, p 19

 [6] CHARTIER, op. Cit, p 23-24

 [7] FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

 [8] BARTHES, Roland. A morte do autor. In: ___. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988

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